Após a retoma do feriado nacional do dia 1 de dezembro, a Filarmónica do Crato manteve a tradição muito enraizada nas bandas filarmónicas portuguesas: comemorar a Restauração da Independência de 1640. E assim foi, desta vez não houve lançamento de novos músicos, mas lá se fez ouvir os acordes do belíssimo Hino da Restauração por algumas artérias do Crato, sem esquecer a rua com esse nome, que coincide com a estrada nacional que vai do cruzamento até Flor da Rosa e, claro está, a já tradicional homenagem junto à Casa Josebel, ao grande Presidente da Banda dos anos 70 a 90, José Joaquim Lopes (Zé Foguete), que faleceu nesse mesmo dia à hora da arruada no ano de 1995. Também já é habitual estar presente toda a família, desde os filhos aos netos e já com bisnetos. Os músicos não eram muitos, mas foram o suficiente para dignificar a banda e a data. Esperamos poder lançar novos alunos em 2019, mas a realidade é que eles não abundam na escola de música.
E o dia maior chegou, a 8 de dezembro, Dia da Padroeira do Crato e de Portugal, Nossa Senhora da Conceição. E este ano manteve-se o elevado nível alcançado em 2017 com a vinda de outra congénere ao Crato e com as duas bandas irmanadas a tocar em conjunto na procissão e no concerto à noite.
Como habitual, o dia começa logo pela manhã para os músicos, direção e maestro da Filarmónica do Crato com a arruada por algumas artérias do Crato. Fez-se a habitual passagem por casa do grande amigo da Banda, já desaparecido, Alexandrino das Neves Carvalho. Também a sua esposa; Narcisa Damas, já não conseguiu estar à espera da banda, fomos encontra-la pouco depois, numa cama no espaço onde ajudou a nascer algumas centenas de cratenses. Durante cerca de 4 décadas esta casa abria as suas portas aos músicos, era paragem habitual para descanso e retoma de energias, mas acima de tudo, para convívio e amizade. Também já é tradição abrilhantar o Hino de Nossa Senhora da Conceição junto dos utentes da Unidade de Grandes Dependentes da Santa Casa da Misericórdia, no antigo Hospital do Crato, e confraternizar um pouco com aqueles que já guardam muitas memórias de melhores dias e a quem a visita da Filarmónica lhes dá um brilho nos olhos e um conforto à alma. O mesmo sucedeu depois, no Lar de Nossa Senhora da Conceição. A arruada matinal terminou com a homenagem à porta de Fernando Carvalho, antigo músico, e de Isidoro Aires, cumprimentando a sua viúva, ele que foi o anterior Presidente da Direção da Banda. A habitual homenagem a Joaquim Morgado não foi possível concretizar visto que a sua antiga casa já não pertence à família. Refira-se que a banda ia bem apresentada em número e qualidade dos seus elementos, em número de 32. No início do desfile, houve uma paragem em casa de um executante, que fazia 50 anos de início de atividade, e na qual se comeu e bebeu com muita qualidade e quantidade, para além do convívio e da amizade (mais adiante diremos que é o cinquentenário).
À tarde, a Procissão de Nª Senhora da Conceição, com bom tempo, foi digníssima, juntando mais de 70 músicos, mais ou menos divididos a meio, pertencentes à banda anfitriã e à Sociedade Filarmónica Municipal Redondense. A imponência da banda e a qualidade do seu timbre não deixou ninguém indiferente. Foi a primeira vez que a Filarmónica do Crato se fez acompanhar por uma sua congénere e a experiência foi muito positiva para todos, músicos e acompanhantes da procissão da padroeira. A mesma foi concorrida, com os estandartes de todas as paróquias do concelho bem como das quatro Juntas de Freguesia e IPSS, o que lhe oferece maior brilho.


Após um intercâmbio ocorrido em Redondo, a 20 de outubro, a Filarmónica do Crato manifestou o desejo de retribuir e trazer a sua congénere ao Crato a 8 de dezembro. Reunidas as condições e com o necessário apoio das duas autarquias, Crato e Redondo, com a oferta do jantar conjunto e transporte, respetivamente, o concerto conjunto foi possível. A atuação das duas bandas unidas na procissão, antecipando em algumas horas o convívio entre músicos, maestros e diretores, foi uma mais-valia. E a união das duas congéneres no concerto, com a casa cheia e com os maestros a dividirem-se, bem como os diferentes solistas, ofereceu a todos os presentes um concerto inesquecível e de boa qualidade.
As duas bandas apresentaram-se com cerca de 80 músicos. Foram tocados alguns temas conhecidos do público e duas peças a estrear. O concerto iniciou com uma excelente marcha, Águas do Botaréu, de Amilcar Morais, bem tocada e de qualidade elevada. Em seguida, assistiu-se ao conhecido tema de Jacob de Haan – Pasadena, seguindo-se uma das melhores obras de um português, o famoso Cycles and Mythes, de Nuno Osório, bem tocado e com excelentes solistas. Em seguida, viria a peça de maior grau de dificuldade, dada a sua variedade de sonoridades e timbres e a riqueza ao nível da percussão, constituída à base de 3 ou 4 dos temas mais carismáticos da portugalidade, de seu nome “Lusitanidades”, de Carlos Marques, provavelmente o expoente máximo da grande e conceituada obra do famoso músico e compositor português. O público foi surpreendido a meio do tema com a aparição em palco de um grupo tradicional de bombos da vila de Redondo, os “Tomba Lobos”, que executou uma parte da obra que está escrita com o intuito de se ouvirem vários compassos com este tipo de sonoridades da cultura tradicional do nosso país (existem um vídeo de parte deste tema no facebook). E o concerto aproximou-se do fim, com a interpretação da obra mais tocada em todo o mundo de Jacob de Haan – “Oregon”, dedicada ao vasto estado do oeste americano, que em alguns trechos nos embala pelos trilhos daquelas terras habitadas por índios, como se fossemos montados numa carroça puxada por cavalos e fechada por toldos, quais colonos em busca da terra prometida. Esta obra também é de difícil execução, mas já fazia parte do conhecimento de todos os músicos, o que tornou mais acessível a sua boa execução. E o concerto terminou em português com o conhecido tema “Uma noite em Lisboa”, de Álvaro Reis, obra sempre interessante para encerrar um evento desta natureza. E em apoteose, com todos em pé, terminou-se com o Hino da Padroeira.



Antes do final, o Presidente da Direção da Filarmónica do Crato, agradeceu a presença de todos (incluindo todas as entidades) e ao município do crato pelo apoio em mais esta atividade. Em seguida, chamou o executante José Manuel Reis Machado (Xavier), e homenageou-o pelos 50 anos da sua primeira aparição na Banda. Há muitos anos que não tínhamos um elemento a atingir esta importante idade como músico, meio século. Parabéns ao nosso colega e todos desejamos que por cá continue mais alguns anos com saúde e disponibilidade.

Entretanto, Filipe Lopes apresentou alguns novos instrumentos: um clarinete, tocado pelo executante Feliciano Raposo, que já merecia um instrumento novo há algum tempo, e que foi oferecido pela União de Freguesias, a quem muito se agradece; um clarinete baixo, instrumento diferente e diferenciador, entregue a José António Belo; um terceiro tímpano, tocado pelo “decano” Carlos Alberto Girão; e uns pratos de concerto, que a Banda nunca teve.

Estes instrumentos foram oferta do município do Crato, sempre presente no apoio a todos os níveis à sua embaixatriz, a Filarmónica do Crato. Houve ainda espaço à habitual troca de presentes entre as duas bandas envolvendo os maestros Humberto Damas e o maestro visitante, o incontornável José Rui do Monte, sempre muito eloquente, no discurso. A Banda de Redondo fez uma oferta surpresa ao jovem cratense, João Baptista, que ganhou a amizade de todos os elementos de Redondo desde o primeiro intercâmbio, e ainda mais cimentado nesta data. O senhor Presidente da Câmara, Joaquim Diogo, teceu palavras de carinho e apoio à Filarmónica do Crato e de amizade à banda visitante. Uma última palavra, vai para o grupo de percussão “Tomba Lombos”, em jeito de agradecimento por se terem envolvido mais uma vez neste intercâmbio, contribuindo para o engrandecimento e alta qualidade do mesmo.


Enfim, imperou a amizade entre todos e foi bonito ver a muita interação existente. São projetos desta natureza que engrandecem toda a gente. E o que é bom e bem feito, deve ser replicado. Augura-se que esta amizade não vai ficar por aqui. Refira-se que as duas bandas já se tinham juntado em Redondo há alguns anos e a nossa Banda também já estivera nessa localidade do distrito de Évora nos anos 80 do século passado, envolvida em encontros de localidades com centros de olaria. O dia 8 de dezembro de 2018, marcou a primeira visita da Sociedade Filarmónica Municipal Redondense ao Crato. E que visita!


